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A PENÚLTIMA VERSÃO DA ETERNIDADE: NIJINSKY EM SANTOS

3 novembro 2009 Nenhum comentário
bernice_kauffman_abud_Keel#1

Foto de berenice kauffman

Era fim de inverno no cais de Santos em 1916. A Grande Guerra turbilhonava a Hospedaria dos Imigrantes até as muradas do Valongo sob a suspeita de sabotagem espiã infiltrando-se entre os carregadores, disputando trapiches apinhados de operários contratados à lavoura ou de capitalistas do café na ‘’Belle  Époque’’, trajando ‘sportsman’ ou ‘dândy’.  O Brasil neutro espreitava atônito ameaça dos submarinos alemães, o anarco-sindicalismo ou advento da fúria bolchevista amalgamada à gripe espanhola. Impérios ruindo, a industrialização fervilhando a provinciana São Paulo; o porto santista era o cadinho onde convergiam braços e cargas de todo continente sul-americano, as aventuras de magnatas ianques , britânicos e turistas sequiosos por lazer seguro nos trópicos. A Europa em chamas exportava arte aos novos-ricos civilizando-se em solo pátrio. Um cinzento navio da ‘’Royal Mail Company’’ deixava a barra com a legação francesa sob a escolta do poeta Paul Claudel, cônsul no Rio de Janeiro e o compositor Darius Milhaud , embarcados para Buenos Aires. O vapor sinistro tinha até o vidro das vigias toldado para não despertar a sanha de bombardeio hostil. Ao crepúsculo, passada a Fortaleza da Barra Grande, um jovem afetadíssimo de smoking apoiava-se a um canto estrelado do passadiço saudando o luar prematuro já além da Ilha das Palmas. Tinha ar estranho de olhos oblíquos protegidos por um leque preto ornado com uma rosa dourada. O rosto talhado de mujique ou príncipe tártaro. A baía tendo São Vicente de esguelha era agora o vislumbre equatorial por inteiro: brisa suave embebida de úmido esperanto nessa Babel do Atlântico. Antes da ceia promovida em honra do romancista Anatole France, o comandante, assim que escurece em bréu além de um palmo, adverte que ninguém deveria permanecer no tombadilho, acender lanternas ou cigarros. À proa , avistou-se um canhão ameaçador : pânico em águas brumosas! Um cruzeiro quase abalroa, célere, aproximado ao extremo. O oficial telegrafista esclarece uma cláusula do código beligerante: durante o conflito todos vapores com intenções amistosas deviam mesmo bicarem em reconhecimento e seguirem em meio a cortina de fumaça de seu destino. Desdenhando agitação das damas e os urros secos de alívio, o fauno russo desenha ligeiros passos simulando pássaro alado ao infinito: alumiando o éter, coreografando o fugaz bafejo sudoeste sobre a copa das últimas palmeiras avistadas, mimetizando em arco a constelação sobranceira , seus pés rastreiam as vagas sem desnortear-se diante a insondabilidade do sentimento oceânico. Evolando, fazendo-se elemento natural, um miasma ou nuvem: um deus de sapatilhas que vive como quem sucumbe: Niijinsky! A sagração da primavera, alvorada ao universo mítico da realidade, a fenomenologia lírica refulgia. Noutra nau rumo em sentido contrário saindo do Prata, já Guarujá ao largo, caminho de Gênova e Genebra, um menino de vista embaçada reteve na memória a duração imorredoura dum instante: testemunhou a encarnação da dança num camarote rente à Ponta da Praia. O pequeno argentino regalava-se em espreitar o balé das palavras na sua mente de ritos, segredos recriados, cosmogonias íntimas. Era Jorge Luis Borges estreando como quem se enleva por uma escotilha nas escrituras de luz investindo nas sombras mais prodigiosas que meteoros. Santos, Nijinsky e Borges ao poente num amplexo bailando sempinterno: Litoral epifânico. (Flávio Viegas Amoreira)

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